
(Póstumo, data real: 11/2007)
Numa noite de primavera, depois de viajar à cidade do Redentor, Rio, embora fosse Novembro, visito o Olympe.
Numa rua quieta, uma entrada charmosa e discreta, como não se poderia negar nas raízes do lugar, com uma certo requinte. Dentro, pelo que me lembre é agradável, não sei se pelos tons de bege claro e vinho... Ou será que vinho era a cor da blusa da Pâmela, um dos meus acompanhantes?
Desconfiada, fiz os pedidos à procura daquele cuidado que se tem nos pratos franceses na essência.
Pedi o cherne com bananas ao molho de passas. Peixe com banana... Tipicamente indígena e sob a máscara franca.
O peixe sobre um sustentáculo das bananas d´água se desfazia na boca, os sabores se misturavam perfeitamente, doce salgado, ácido, macio crocante... se equilibrava, completando-se, textura, sabor e apresentação perfeitos, como nunca tinha provado em lugar algum que tivesse ido.
Uma cortesia da casa foi feita em veio um risoto com pipoca de arroz levemente perfumado com azeite de trufas brancas. Novamente: textura, cores, sabor perfeitos de todos os componentes.
De sobremesa, uma cheesecake com base leve, um daccoise, entremeio de creme de queijo suave, cobertura de goiabas em compota muito delicada, feita em pétalas, a calda brilhava, não era 'melada', pouco doce, nada parecido com aquelas que vem com quase um torrão de goiabada. Nada estravagante, nada saindo da linha, eu pensava: "como pode isso???" à medida que provava cada prato.
Ainda pedi um late harvest maravilhoso. Infelizmente não recordo agora, tão absorvida estava para detectar como funcionava aquilo tudo, mas lembro sim, que a carta de vinhos é impecável.
Na época ainda era estudante de gastronomia e saí de lá com os bolsos raspados, espremidos até o bagaço... Mas extasiada, maravilhada, a ponto de na outra semana salgava o que não costumava salgar, desapimentava o que costumava apimentar, mudava os tempos de cocção que costumava usar, tudo para chegar aquele resultado, buscando aquela miríade de sabores que se fez naquele lugarzinho cheio de personalidade. Era simples, mas era delicadíssimo. Aí está o que me fascina: Simplicidade, equilíbrio, delicadeza.
O chef já me agradava pela personalidade, daí, provei ao vivo os resultados de seu trabalho. Admiro pela sagacidade, pela criatividade. Sua comida tem cor... Tem vida. E o que é nosso trabalho se não espectros refletidos de nós mesmos, materializados? E me derramo em elogios nada tendenciosos, porque costumo ter a língua afiada. Mas essa análise me arrebatou.
Foi um luxo que custou bem caro ao meu humilde bolso estudante, mas me valeu a pena.
Até hoje, posso dizer que foi onde melhor comi. Até hoje... Porque espero me encantar mais mil vezes, claro.
